Em maio de 2025, o Brasil enfrentou um marco preocupante em seu setor agropecuário: o primeiro caso confirmado de gripe aviária em uma granja comercial. O foco foi identificado na cidade de Montenegro, no Rio Grande do Sul, onde uma granja de postura foi isolada após a morte anormal de centenas de aves. O anúncio foi feito oficialmente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) no dia 16 de maio.
Esse evento alarmou não apenas os produtores locais, mas também os mercados internacionais, levando a suspensões temporárias de importações de carne de frango brasileira por parte de diversos países — entre eles, China, União Europeia, África do Sul e Argentina. A repercussão imediata reacendeu discussões sobre biossegurança, vigilância sanitária e a capacidade de resposta do Brasil frente a emergências sanitárias no setor produtivo.
O que é a gripe aviária?
A gripe aviária, ou influenza aviária, é uma doença viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres. Ela é causada por vírus da família Orthomyxoviridae, sendo os subtipos mais preocupantes os H5 e H7. Embora sua transmissão para humanos seja rara, ela pode ocorrer, especialmente entre trabalhadores que têm contato direto com aves infectadas.
A variante H5N1, altamente patogênica, é a mais temida por seu potencial zoonótico e por já ter causado mortes humanas em outras partes do mundo. No entanto, segundo o MAPA, o caso registrado no Brasil foi contido precocemente, com baixo risco de disseminação para humanos.
Medidas emergenciais adotadas
Logo após a confirmação, o governo federal adotou uma série de medidas para conter o foco e evitar sua propagação para outras unidades produtoras e para a fauna silvestre. As ações emergenciais incluíram:
- Isolamento imediato da granja afetada;
- Eutanásia sanitária de aproximadamente 50 mil aves no local;
- Proibição do trânsito de aves e produtos avícolas num raio de 10 km;
- Coleta de amostras em granjas vizinhas e aves silvestres da região;
- Aumento da fiscalização e vigilância ativa em todo o estado.
O Ministério da Agricultura, em parceria com a Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, mobilizou mais de 100 técnicos para monitorar granjas, investigar casos suspeitos e aplicar protocolos de emergência. A área foi classificada como zona de controle sanitário, e novas amostras seguem sendo coletadas para garantir que o vírus não se espalhe.
Impactos econômicos e comerciais
O impacto direto no setor avícola brasileiro foi imediato. O Brasil é o maior exportador de carne de frango do mundo, e as exportações desse setor representam mais de US$ 9 bilhões por ano. As suspensões temporárias anunciadas por importantes parceiros comerciais colocam em risco a economia de diversos municípios que dependem da produção avícola.
Entidades como a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) estão trabalhando para manter os países importadores informados sobre as ações sanitárias tomadas. O objetivo é limitar o impacto comercial e evitar que o episódio seja tratado como um problema sistêmico no país.
Especialistas reforçam que o caso está isolado e que o Brasil permanece com o status de país livre de gripe aviária em aves comerciais, conforme as diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). No entanto, esse status pode ser revisto caso novos focos surjam em outras regiões do país.
Repercussão internacional
A confirmação do foco em uma granja comercial levou à suspensão de embarques já programados para países como Japão, Emirados Árabes e Indonésia. Em nota, a Comissão Europeia informou que, embora confie nas ações do Brasil, optou pela suspensão cautelar até que haja garantia de controle total do foco.
A China, maior compradora de carne de frango brasileira, também emitiu alerta para a indústria local, suspendendo temporariamente novos contratos enquanto acompanha o desenrolar da situação sanitária.
O Itamaraty e as embaixadas brasileiras nas capitais dos principais países importadores estão mobilizadas para evitar a imposição de sanções mais duras, buscando demonstrar transparência e responsabilidade sanitária.
Possível origem do foco
Embora as investigações estejam em curso, autoridades suspeitam que o vírus possa ter sido introduzido por aves migratórias, que passam pela região sul do Brasil durante determinadas épocas do ano. É importante lembrar que, desde 2023, o Brasil já vinha registrando casos esporádicos de gripe aviária em aves silvestres e de subsistência, especialmente em estados do Norte e Nordeste.
No entanto, é a primeira vez que o vírus atinge diretamente a cadeia industrial de produção, o que levanta preocupações sobre os protocolos de biossegurança em granjas comerciais.
Prevenção e conscientização
O governo, em conjunto com entidades do setor, lançou uma campanha nacional de prevenção com foco em:
- Orientar os produtores sobre sinais clínicos da doença;
- Reforçar a importância do uso de equipamentos de proteção individual (EPIs);
- Proibir o acesso de pessoas não autorizadas às áreas de produção;
- Manter a vigilância sobre aves silvestres em regiões de risco.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, fez um pronunciamento garantindo que a situação está sob controle e que o país está preparado para lidar com possíveis novos focos. “O Brasil tem um dos sistemas de defesa sanitária mais respeitados do mundo, e vamos demonstrar nossa capacidade de resposta novamente”, afirmou.
O que esperar daqui para frente?
O episódio em Montenegro deve servir como alerta vermelho para a agroindústria brasileira. O país precisa fortalecer suas políticas de biossegurança, ampliar a cobertura da vigilância ativa e investir em laboratórios de diagnóstico mais ágeis.
Embora as autoridades estejam confiantes na contenção do caso, a ocorrência do primeiro foco em uma granja comercial muda o cenário epidemiológico e exige atenção redobrada dos produtores, técnicos e exportadores.
A expectativa é que, se novos casos não surgirem nas próximas semanas, os países importadores retomem as compras com base na confiança nas ações do Brasil. Até lá, o setor avícola enfrentará incertezas que exigirão resiliência, diálogo internacional e ações firmes do poder público.